sexta-feira, abril 06, 2007

SÓCRATES E A LIBERDADE DE IMPRENSA

O diploma e a liberdade de imprensa
Já não basta a Sócrates mostrar os diplomas para acabar com o que diz ser uma campanha de boatos e ataques pessoais.

Editorial do jornal Expresso, de 5 de Abril de 2oo7

O diploma de José Sócrates ameaça tornar-se o seu caso Lewinsky, minando a credibilidade do primeiro-ministro, afectando a acção do Governo, condicionando a recuperação económica e mudando as expectativas positivas dos «animal spirits» que se vinham constatando desde que o líder do PS se instalou em São Bento.

Os últimos desenvolvimentos mostram o desnorte que se instalou no gabinete do primeiro-ministro. Por exemplo, na nota oficial distribuída no sábado afirmava-se que Sócrates tinha uma pós-graduação com MBA em gestão de empresas pelo ISCTE e nada se dizia de uma pós-graduação em Engenharia Sanitária na Escola Nacional de Saúde Pública. No portal do Governo, contudo, desapareceu a primeira e só aparece a segunda.

Sócrates teria acabado com a polémica se, quando ela estalou, mostrasse os diplomas. Mas, ao deixar arrastá-la, está agora numa situação em que já não lhe basta fazer isso. Só uma investigação independente, que tenha acesso a todos os documentos, pode clarificar a forma como o primeiro-ministro obteve o seu diploma da UnI.

E não é através de telefonemas “furibundos” de Sócrates ou dos seus assessores para as redacções que o assunto se resolve. Mas também convém lembrar que pressões de primeiros-ministros, de ministros e de assessores sobre jornalistas sempre houve e haverá, enquanto existirem políticos e órgãos de comunicação social. Dizer que devido a estes telefonemas está em causa a liberdade de imprensa já releva de alguma paranóia persecutória, como aliás prova o facto de a história do diploma de Sócrates estar a ser falada há já bastante tempo na Net e desde há duas semanas investigada no ‘Público’ e no Expresso.

A nova lei de imprensa, o novo estatuto do jornalista e a forma como a Entidade Reguladora da Comunicação Social (ERC) entende a sua missão ameaçam muito mais a liberdade de imprensa do que os telefonemas “furibundos” do primeiro-ministro. E pressões a sério são as de empresas e empresários. Quando se zangam, asfixiam um jornal, uma rádio ou uma televisão, cortando a publicidade ou as assinaturas. Os políticos, felizmente, não têm esse poder.





O CALCANHAR DE SÓCRATES...













Investigação do PÚBLICO

Reitor Luís Arouca omitiu documentos do dossier da licenciatura de Sócrates

O dossier de licenciatura de José Sócrates na Universidade Independente (UnI), revelado ao PÚBLICO no dia 16 de Março, não estava, afinal, completo. Embora na altura da consulta — autorizada pelo primeiro-ministro — o antigo reitor da UnI tenha garantido que estava a disponibilizar todos os documentos sobre o aluno existentes naquela instituição, as duas jornalistas do "Expresso" que fizeram a mesma diligência seis dias depois tiveram acesso a outras partes do processo.

Por outro lado, pelo menos duas alegadas pautas dadas ao PÚBLICO, e que mostravam notas divergentes com as indicadas no certificado de habilitações do curso, desapareceram do dossier.

As fotocópias fornecidas ao PÚBLICO somavam 17 folhas, delas constando, nomeadamente, para além do certificado de habilitações da universidade e da folha apresentada como sendo um pauta, uma folha com as cadeiras que José Sócrates concluíra ao longo da sua licenciatura e uma certidão das cadeiras completas no Instituto de Engenharia de Lisboa, com a data de Julho de 1996.

Nessa altura, questionado sobre se não existiriam outras provas que indicassem, por exemplo, quem haviam sido os regentes das cadeiras concluídas por José Sócrates, o antigo reitor da Independente, Luís Arouca, afirmou taxativamente: “Nós não temos cá mais nada para além daquilo que eu lhe dei”, acrescentando ainda: “Ao fim de cinco anos vai tudo para o maneta”.

No dia 22 de Março, contudo, quando duas jornalistas do "Expresso" se dirigiram à UnI para ver o processo, surgiram novas folhas, sem que tenha sido dada qualquer explicação para tal facto. De acordo com uma das jornalistas do "Expresso" presentes nessa consulta — que foi acompanhada por quatro homens, para além de Luís Arouca —, foram revelados, pelo menos, seis novos documentos relativamente ao dossier mostrado ao PÚBLICO.

Entre eles estavam cinco alegadas pautas, cada uma correspondendo às cadeiras que constam do certificado de licenciatura de José Sócrates. A de Inglês Técnico aparece com a assinatura de Luís Arouca e as restantes, todas da área das estruturas, com a assinatura de António José Morais. Não foram, contudo, incluídos no dossier mostrado ao "Expresso" outras duas “pautas” reveladas ao PÚBLICO.

Nessas folhas, que são uma grelha do plano de curso, com a carga horária e a designação de cada disciplina, foram acrescentadas as notas de Sócrates. Comparadas as notas aí apresentadas com as que constam do certificado de habilitações, conclui-se que as avaliações finais são díspares em três cadeiras. Na disciplina de Betão Armado e Pré-Esforçado, a nota manuscrita é 17 e no certificado é 18.

O mesmo sucede na cadeira de Projecto e Dissertação: uma nota de 17 passa a ser de 18. Só a Análise de Estruturas é diminuída a avaliação: de 17, no certificado, para 16, na folha apresentada como pauta. A Inglês Técnico a nota mantém-se.

Público, 06.04.2007 - 10h02 - Ricardo Dias Felner

No ano de 1996

Justificação do Governo sobre inexistência de licenciados na UnI é contrariada por estudo oficial
05.04.2007 - 16h38 Ricardo Dias Felner


A justificação dada ontem ao PÚBLICO pelo Ministério do Ensino Superior para explicar por que razão, em 1996, não surge no relatório do Observatório para a Ciência e Ensino Superior (OCES) qualquer licenciado no curso de Engenharia Civil da UnI, que José Sócrates afirma ter concluído nesse ano, é contrariada pelos próprios dados desse estudo.

O Ministério do Ensino Superior alegara que tal se devia ao facto de o relatório Diplomados (1993-2002) não contabilizar os alunos licenciados que haviam sido transferidos de outros estabelecimentos de ensino: ou seja, de acordo com esta explicação, apenas seriam indicados os alunos que haviam iniciado e concluído os seus cursos no mesmo estabelecimento de ensino.

Olhando para os dados do levantamento estatístico percebe-se no entanto que, ao contrário do que refere o ministério, foram somados também casos de alunos que ingressaram na Universidade Independente (UnI) por transferência.

Para o ano de 1997, por exemplo, aparecem no relatório sete alunos diplomados em Engenharia Civil pela UnI, que só podem ali ter ingressado por transferência, uma vez que esta licenciatura apenas tinha três anos de existência nessa altura.

O curso de Engenharia Civil da UnI teve início no ano lectivo de 1994/95, tendo sido o seu plano de estudos posteriormente aprovado pela portaria número 496/95, de 24 de Maio.

A ser correcta a explicação do Ministério do Ensino Superior, os primeiros licenciados indicados no documento do OCES só surgiriam em 1999.

Sucede ainda que na introdução do relatório do OCES não é feita nenhuma ressalva relativamente à exclusão de alunos transferidos, afirmando-se, pelo contrário, que cabe no âmbito das estatísticas o grau de licenciado, “obtido através de diferentes percursos curriculares”.

Entretanto o Ministro do Ensino Superior fez saber, num comunicado enviado pelas 16h00, que solicitou à Inspecção-Geral do Ensino Superior que procedesse "ao esclarecimento cabal" "de apuramento e comunicação da informação estatística, assim como dos procedimentos de equivalência para prosseguimento de estudos, com vista a dissipar a inaceitável suspeição generalizada que foi lançada".


quarta-feira, abril 04, 2007

O "caso" Independente é um insulto


fmadrinha@expresso.pt

Sábado, 31 de Março de 2007

Ultimato tardio
O ‘caso Independente’ é um insulto não só à palavra universidade mas também ao Ministério da tutela

Tal como se previa desde o início, pelo perfil que os principais protagonistas apresentavam, a novela da Universidade Independente acabará onde era mais natural que acabasse: na cadeia. Isto significa que a polícia e os tribunais estão a cumprir o seu papel. Pois se os próprios envolvidos na disputa se acusam uns aos outros de ladrões e vigaristas, impõe-se que quem de direito investigue e comprove se falam verdade.

Pelos vistos, sim, falam verdade. Espera-se que um dia se saiba a história toda para percebermos se e como é que uma instituição que leva o nobre nome de universidade pode sustentar negócios sujos sem que o Estado dê por isso. E quais os negócios sujos que fazia - se apenas a montante do seu objecto declarado, que é ministrar cursos superiores, ou no próprio exercício dessa missão. As falcatruas de que houve notícia esta semana, com denúncias de assinaturas falsas e de ‘solicitadores’ promovidos, fazem temer o pior.

O espectáculo degradante que nos tem sido oferecido é um insulto à própria palavra universidade. Mas não só. É também um insulto ao Ministério da tutela, ao actual e aos anteriores, pois um ‘monstro’ daquele gabarito não nasce de um dia para o outro. Alguém já devia ter visto o que por lá se passava, pois é para isso que existe a tutela. E depois de o escândalo ter rebentado, o ministro andou devagar, tendo em conta a gravidade do caso. Agora que fez um ultimato, impõe-se que Mariano Gago seja firme e rigoroso na clarificação da situação. E que quem é responsável por essa mesma situação se responsabilize também pelo destino dos alunos.

Processo académico de Sócrates é bizarro...


Investigação
José Sócrates concluiu o curso na Universidade Independente num domingo. O processo académico é bizarro


As sombras de Sócrates


As notas de quatro exames finais do primeiro-ministro - duas provas escritas e duas orais - foram lançadas no mesmo dia de Agosto, para completar a sua licenciatura em Engenharia Civil, na Universidade Independente. As duas cadeiras foram dadas pelo mesmo professor que, aliás, leccionou mais duas disciplinas finais do curso. O diploma data de 8 de Setembro de 1996. Curiosamente, um domingo.

Estas são algumas das conclusões a tirar dos documentos apresentados ao Expresso sobre o processo do aluno José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa, na Independente. A confusão é grande e aumenta à medida que se vão ouvindo intervenientes neste processo.

António José Morais assume ter sido responsável por quatro das cinco cadeiras que o primeiro-ministro completou naquela escola. “Dei-lhe aulas”, juntamente com o assistente Fernando Guterres e o monitor Silvino Alves. Disse ainda que era “responsável da comissão científica” e que, nessa qualidade, aprovou o plano de estudos delineado para aquele aluno. “A UnI foi muito exigente, porque o reitor queria que os alunos pagassem propinas, obrigando-os mesmo a ter currículo a mais”. O reitor, por seu lado, alegou, em carta enviada a 12 de Setembro de 95 ao então secretário de Estado, que a “comissão científica da Faculdade de Tecnologias” exigia que completasse quatro cadeiras, que discriminou. A carta apenas está assinada pelo próprio reitor, Luís Arouca.

Estas declarações são contraditadas por Frederico Oliveira Pinto, que diz ter sido o primeiro presidente do conselho científico da Independente e, na altura, professor de todas as cadeiras de Cálculo das licenciaturas de Engenharia. Garantiu ao Expresso nunca ter visto José Sócrates naquela escola, “a não ser muitos anos mais tarde, durante uma oração de sapiência em que estava na assistência”.

“Foi tudo feito com o meu total desconhecimento”, acrescenta, referindo-se ao processo de licenciatura, garantindo ainda que o plano de equivalências e de estudos de Sócrates não foi submetido a apreciação de qualquer órgão académico. “O conselho científico só foi criado em meados de 97”, já o actual primeiro-ministro tinha terminado o curso.

Por lei, as universidades privadas têm de ter “obrigatoriamente” conselho científico. “Mas, mesmo depois de constituído o conselho, o reitor nunca permitiu que nos pronunciássemos sobre qualquer processo de equivalências, apesar de esta ser uma exigência legal”, conclui Oliveira Pinto.

Pautas destruídas

Sócrates entrou na Independente em finais de 1995, para completar uma licenciatura em Engenharia Civil, iniciada muitos anos antes no Instituto Politécnico de Coimbra (quatro anos) e, seguidamente, no Instituto Superior de Engenharia de Lisboa (um ano). Terá feito cinco cadeiras na UnI para receber o diploma: Análise de Estruturas; Betão Armado e Pré-Esforçado (anuais); Estruturas Especiais; Projecto e Dissertação (semestrais) e ainda Inglês Técnico (anual).

As quatro primeiras foram leccionadas por António José Morais, conforme consta nos documentos consultados pelo Expresso, onde só figura o nome de José Sócrates, sem número de aluno, ano lectivo e turma. Morais explica: “Nas verdadeiras pautas figura o nome de todos os alunos que fizeram o mesmo exame. Mas essas são destruídas passado uns tempos”. O facto de o registo de dois exames - provas escritas e orais - terem a mesma data é, igualmente, desvalorizado. A universidade “não tinha livro de termos, substituindo tudo por um dossiê individual a que chamava nota de pauta”. “Os exames foram feitos em dias diferentes e sempre com outros alunos”, afirma Morais.

A única cadeira que não foi da responsabilidade de António Morais foi dada por Luís Arouca, reitor da instituição até ontem. Curiosamente, o professor a quem tinha sido atribuída na Independente a regência desta disciplina - Inglês Técnico - também disse ao Expresso nunca ter visto José Sócrates na universidade. “Nunca lhe dei nenhuma aula e nunca lhe fiz qualquer avaliação”.



Secretaria aberta ao domingo

Carlos Gomes Pereira e Alberto Santos assumem ter sido colegas de curso do primeiro-ministro em 1996. “Éramos sete alunos, mas nem todos tínhamos as mesmas cadeiras, uma vez que éramos provenientes de Politécnicos diferentes”, disse Alberto Santos. “Naturalmente, tínhamos aulas juntos e fizemos exames juntos. Lembro-me de Sócrates lá estar, apesar de eu não ter sido muito assíduo”, explicou Carlos Pereira.

No processo de Sócrates existente na Independente o certificado de habilitações surge com data posterior à da sua matrícula. Isso ficar-se-á a dever ao facto de as notas não terem sido lançadas em tempo útil pelo ISEL.

O diploma final de curso da UnI é assinado pelo reitor e pela sua filha - chefe dos serviços administrativos da Universidade Independente - no dia 8 de Setembro de 1996, ou seja um domingo, como o Expresso confirmou. Mas, para o professor António Morais, tal facto “não é estranho. Nas universidades privadas, muitas vezes trabalha-se ao domingo”.

Muitas das dúvidas levantadas durante a investigação jornalística ao processo de Licenciatura de José Sócrates podiam ser respondidas pelo Ministério da Ciência e do Ensino Superior. De acordo com os Estatutos do Ensino Superior Particular e Cooperativo é a essa entidade que compete “fiscalizar o cumprimento da lei”. Lei essa que “obriga” as universidades a terem conselho científico e livros de termos. Mais ainda: obriga à entrega anual de todos os processos académicos dos estudantes matriculados naqueles estabelecimentos de ensino, nomeadamente com nomes de alunos, professores, cadeiras, assim como horários e planos de curso.

Até ao fecho da edição o Ministério não teve possibilidade de esclarecer estas matérias. Também o primeiro-ministro, José Sócrates, ou o seu Gabinete preferiram não fazer qualquer comentário.

Textos Hugo Franco, Mónica Contreras e Rosa Pedroso Lima - jornal EXPRESSO

Os recados para São Bento

Os primeiros a chamar a atenção para a licenciatura do primeiro-ministro ter sido concluída na Universidade Independente foram, precisamente, os responsáveis daquela escola. Mais: fizeram questão de o afirmar publicamente logo após ter estalado a crise de gestão da UnI, a 26 de Fevereiro.

Luís Arouca foi o primeiro a falar. No dia 28, dá uma pequena entrevista ao jornal ‘24 Horas’ para garantir que se lembrava muito bem do aluno José Sócrates. “O nosso primeiro-ministro terminou o curso com 16 valores. Talvez nunca tenha ouvido Beethoven ou lido Goethe, mas é um tipo brilhante, de rápido raciocínio e inteligência prática”, escreve o jornal.

O primeiro erro surge aqui. Nos documentos da UnI sobre Sócrates a nota final de licenciatura é de 14 valores.

Mas há mais. O então reitor da UnI faz questão de lembrar que foi professor de Inglês Técnico de Sócrates e que ficou “surpreendido” na oral que lhe fez. Outro lapso: o regente da cadeira era outro docente. Ou ,talvez, um recado.

Finalmente, lembra as cadeiras onde o PM se destacou: Planeamento e Política do Ambiente, onde revelou “grande traquejo político”. Curiosamente, estas cadeiras não existiam em Engenharia Civil e não foram feitas por Sócrates.

Antes destas declarações, o reitor tinha levantado suspeitas sobre a validade da licenciatura em Direito de Amadeu Lima Carvalho - outro dos sócios da Sides, proprietária da UnI -, com quem entrou em litígio. Lima de Carvalho acabaria por ser, esta semana, detido preventivamente por suspeita de vários crimes, entre os quais, tal como o reitor, de falsificação de documento Em declarações ao Expresso, no início de Março, e também a várias televisões, Amadeu respondia de forma peremptória ao reitor: “o meu diploma é tão verdadeiro como o do senhor primeiro-ministro”.


H.F., M.C. e R.P.L.





Os documentos que o Expresso viu

Os únicos documentos apresentados como ‘o dossiê Sócrates’ na Universidade Independente são um conjunto de papéis soltos, sem numeração nem qualquer carimbo da instituição. Foram facultados ao Expresso - depois de muita insistência e algumas desistências da parte do reitor Luís Arouca- no dia 23 de Março, à tarde, já a edição do jornal estava fechada. Aparentemente, só o reitor está na posse desta documentação. O mesmo Luís Arouca que, quarta-feira passada, seria constituído arguido por suspeita de vários crimes, entre os quais o de falsificação de documentos.

O Gabinete do primeiro-ministro proibiu, mesmo, na passada terça-feira, um novo acesso do Expresso à documentação existente na reitoria da Independente. Só ontem, José Sócrates indicou o nome de dois antigos professores e permitiu o acesso a documentos do seu currículo, que reproduzimos ao lado. No entanto, recusou sempre prestar qualquer declaração sobre este assunto.

O processo académico que consultámos - e que constitui, assim, o único conjunto de documentos que fazem prova da licenciatura do primeiro-ministro - foi analisado em condições «sui generis»: na reitoria de uma universidade em estado de crise interna e sempre na presença de Luís Arouca, que se fazia acompanhar por quatro homens, um dos quais nomeado há cerca de três semanas director do curso de Direito, João Álvaro Dias. Foram expressamente proibidas fotocópias.

Nos documentos apresentados como prova consta apenas o nome do aluno (manuscrito), sem quaisquer referências adicionais. Apenas uma rubrica do professor da cadeira: quatro alegadamente de António Morais e outra de Luís Arouca. Duas folhas manuscritas e com algumas disciplinas quase ilegíveis, constituíam o plano de equivalências, que não tinha nem data nem assinatura. Não tivemos acesso a qualquer livro de termos - exigido por lei -, onde constariam os dados académicos dos estudantes, ou a livros de sumários, horários e lista de alunos, de professores e de disciplinas daquele curso. Alegadamente, não existem.

Constavam ainda do dossiê algumas notas (cartões, faxes e uma carta) manuscritas por José Sócrates e em papel timbrado da secretaria de Estado do Ambiente. Um texto em inglês dactilografado e corrigido a vermelho foi apresentado como a prova escrita de Inglês Técnico, embora não estivesse redigido em nenhuma folha de teste da universidade.

As dúvidas que o processo levanta precisam de ser esclarecidas.


M.C. e R.P.L.





Perguntas sem resposta

Ao longo de duas semanas, o Expresso contactou uma série de entidades que se recusaram a responder sobre matérias que poderiam fazer luz sobre a licenciatura do primeiro-ministro.

O Gabinete do ministro da Ciência e do Ensino Superior, contactado, no dia 29 de Março, respondeu que não conseguia dar as respostas por falta de tempo:

1. Quantas inspecções foram feitas à UnI pelos serviços do MCTES? E quais os resultados?

2. Houve anteriores processos desencadeados contra a Universidade Independente? Quantos e porquê?

3. Existem queixas apresentadas contra a UnI junto desse Ministério? Quantas e por quem?

4. Qual é a lista dos docentes relativa ao curso de engenharia civil entre os anos 1994-1997 que foi apresentada ao MCTES de acordo com as obrigações previstas na lei?

5. Que disciplinas eram ministradas por cada um dos docentes?

6. Os serviços do MCTES receberam alguma informação documental sobre a licenciatura do senhor primeiro-ministro? Em caso afirmativo, pode o Expresso ter acesso a ela?

À Ordem dos Engenheiros foi colocada a seguinte questão no dia 29 de Março: Um aluno que complete quatro anos no ISEC (Politécnico de Coimbra), um ano no ISEL no âmbito do CES (94/95) e depois quatro cadeiras na Uni, fica com a Licenciatura em Engenharia Civil?

A Ordem alegou não ser da sua competência pronunciar-se sobre o reconhecimento dos cursos e da sua composição curricular, remetendo a questão para o MCTES.

sexta-feira, março 23, 2007

A história repete-se?

Liberdade ou segurança?

Não há memória de uma má medida ter sido tomada por pura maldade. Em política, os resultados desastrosos surgem sempre como propostas razoáveis

Muitos comentadores interrogaram-se: e se tivesse sido a direita a aprovar um modelo que concentrasse todas as polícias nas mãos do primeiro-ministro? O que não diria o PS? O que não diriam todos os socialistas?

A pergunta é razoável e é quase certo que os socialistas diriam cobras e lagartos dessa medida e aproveitariam para colocar os mais negros intuitos no partido e no primeiro-ministro que ousasse propô-la. Mas, claro, quando são eles a decretá-la acham que a sua história fala por eles, que estão acima de qualquer suspeita.

Historicamente, isso não é verdade. Medidas desastrosas para a liberdade foram tomadas tanto pela esquerda como pela direita. E nenhuma delas foi apresentada tendo como objectivo a perda da liberdade, ou como consequência de uma qualquer perversidade dos governantes. Hoje é fácil olhar para trás e ver os crimes de Hitler e Estaline. Mais difícil era vê-los na altura. Hoje é fácil olhar para trás e ver o rombo das nacionalizações e a loucura do PREC, mas a maioria, na altura, não parecia acreditar nisso.

Quase todas as ideias perversas para a liberdade nasceram da necessidade de segurança. A concentração das polícias é mais uma que surge com essa justificação. Não será o fim do mundo, nem da democracia, nem da liberdade mas é, certamente, demasiado poder demasiado concentrado. E quando se chega a este ponto, é fácil passar a fronteira. Por vezes, sem que quase ninguém dê pelo facto de se estar a passar a fronteira.

Outra coisa bem diferente é saber se muitas pessoas não estão, em diversas circunstâncias, dispostas a sacrificar a liberdade. Não só quando se escolhe Salazar como bom tipo e se lhe dedica um museu (os republicanos, no século XIX também elegeram Pombal como modelo), mas em pequenas insignificâncias do dia-a-dia.

Por exemplo: quando se apela à proibição de anúncios (Armani Junior, Dolce & Gabbana) em nome de uma moral mais ou menos politicamente correcta, não se limita a liberdade criativa? Nas constantes solicitações para que o Estado regule e decrete sobre as mais diversas actividades, não se diminui a liberdade e responsabilidade individuais? Nos constantes subsídios que certos empresários pedem ao Estado não se sacrifica a liberdade e o risco de negócio e de comércio? Ou, naquilo que a mais gente toca, quando se defende a rigidez do contrato de trabalho, não se sacrifica a liberdade contratual e a mobilidade?

Estas questões concretas são inconvenientes. Porque antes de perguntarmos o que diria o PS acaso a lei fosse do PSD, é preciso entender o que diria o país num caso ou noutro. E, infelizmente, a resposta a esta última pergunta não é de molde a tranquilizar-nos totalmente. Não temos uma sociedade onde a liberdade surja como necessidade primordial. Em diferentes sectores aceitamos o seu sacrifício. Eis uma explicação possível para o facto de a concentração dos poderes policiais (devidamente justificados em nome da segurança) não levantarem qualquer polémica. Mas, recorde-se, as escutas telefónicas, no momento em que foram aprovadas, também não suscitaram qualquer debate.

Depois, foi o que se viu.

editorial do jornal EXPRESSO, edição de 24 de Março de 2007

Cultura: Governo intimida



Governo intimida artistas para transferirem espectáculos do Coliseu para o Teatro

A denúncia parte de José Andrade, director-geral do Coliseu Micaelense, que diz que o Executivo tem alimentado uma visão partidária da cultura.

Desde há muito que se assiste a uma certa rivalidade entre o Coliseu Micaelense e o Teatro Micaelense, numa situação que, para alguns, mais não é do que a partidarização da cultura, na ilha de S. Miguel. Apesar de achar que as duas casas de espectáculos devem ser complementares, o director do Coliseu Micaelense afirma em tom crítico que "o Governo tem alimentado esta visão partidária da cultura, uma vez que alguns artistas têm sido intimidados, pelo Executivo, no sentido de transferirem os seus espectáculos do Coliseu para o Teatro".
José Andrade explica que "em matéria de cultura, o Governo Regional tanto tem medidas que são manifestamente louváveis como tem comportamentos que são eticamente reprováveis. No caso dos aspectos positivos, destaco, por exemplo, o mérito da recuperação e reabertura do Teatro Micaelense. Nos caso dos aspectos negativos, não posso, infelizmente, deixar de denunciar, por parte do Governo, um certo proteccionismo face a uma casa de espectáculos, em detrimento de uma outra. Assumo isso a título meramente pessoal, não vincula uma posição oficial do Coliseu. Mas, enquanto cidadão, não posso assistir sem reacção a um comportamento que tem vindo a revelar-se sistematicamente. Incompreensivelmente, alguns membros do Governo - eles próprios - intimidam directamente artistas e produtores açorianos para transitarem os seus espectáculos do Coliseu para o Teatro, sob pena de não receberem apoio público. Isso não me parece correcto e é condenável. A cultura deve estar ao serviço de todos e o Governo Regional tem a obrigação de tratar todos por igual."
As críticas, contudo, não se estendem à administração do Teatro Micaelense, da qual diz não ter qualquer razão de queixa. "A presidente do Teatro, com quem falo com alguma frequência, tem uma postura absolutamente correcta no relacionamento institucional que deve subsistir entre duas grandes casas de espectáculos que partilham o mesmo pequeno mercado. Procuramos, tanto quanto possível, evitar a coincidência de datas e o tipo de eventos que produzimos. Isso significa que o público passou a ter possibilidade de escolha e a concorrência, neste caso saudável, é sempre vantajosa para o consumidor. O público é quem fica a ganhar e é quem determina como as casas de espectáculos devem, de alguma forma, orientar a sua programação."

jornal diário

GOVERNO REGIONAL DÁ DINHEIRO À TVI (privada)

»O presidente do Governo Regional dos Açores presidiu, terça-feira à noite em Ponta Delgada, à apresentação pública da nova novela da estação de televisão TVI que começa a ser emitida dia 26.

Porque os açorianos gostam de ver a sua terra e as suas vivências retratadas, a nova produção da TVI terá "audiência plena" no arquipélago, assegurou, reiterando as vantagens para a Região de uma novela que conta com um financiamento do executivo num montante de 350 mil euros.

Eu bem me parecia que a maior promoção relacionada com este apoio era a promoção do Governo junto dos Açorianos.

Já agora deixo um conselho à RTPA: no horário de prime time em que será emitida a referida novela, e já que César aconselha o seu visionamento, aproveitem para dar as notícias que costumam dar do executivo, assim escusamos de sobrecarregar os Açorianos com a máquina de propaganda do executivo.

Esta Região está uma verdadeira novela, e logo da TVI.

Ainda os vamos ver a comer "ananases com açúcar".»

Blogue BURGALHAU, 2007.3.14

Sócrates altera biografia oficial

Portal do Governo
BIOGRAFIA OFICIAL ALTERADA NO DIA 15

«O currículo oficial do primeiro-ministro, publicado no portal do Governo na Internet, foi alterado na passada 5ª feira, dia 15. Isso aconteceu depois do PÚBLICO confrontar o gabinete de José Sócrates com o facto da Ordem dos Engenheiros (OE) não lhe reconhecer o título profissional de “engenheiro civil”. Agora é apresentado como “licenciado em Engenharia Civil”.

De acordo com a lei, só quem tenha frequentado um curo reconhecido pela OE ou passado com aproveitamento no exame de acesso à profissão é considerado engenheiro. Nenhuma dessas situações sucede com José Sócrates. “O curso da UnI não foi aprovado e a pessoa que referiu não é membro da OE”, disse Marta Parrada, relações públicas da OE. Confrontado com esta informação, o gabinete do primeiro-ministro reconheceu que José Sócrates não era engenheiro, mas sim licenciado em Engenharia Civil, mas desvalorizou o assunto.

Mais tarde, em 2003-2004, o primeiro-ministro frequentou o mestrado em Gestão de Empresas do ISCTE, sendo recordado como um bom aluno, embora não tenha chegado a apresentar dissertação. Não há, no portal do Governo, qualquer referência a esta passagem pelo ISCTE.

Uma outra indicação errada da sua biografia oficial no portal do Governo, esta não corrigida, é o facto de indicar uma pós-graduação em Engenharia Sanitária, pela Escola Nacional de Saúde Pública. Existe, de facto, uma pós-graduação em Engenharia Sanitária, mas na Universidade Nova de Lisboa. José Sócrates admitiria ao PÚBLICO que o que frequentou foi um curso, “uma graduação nesta área”, para engenheiro municipais, nos anos 80, quando ainda tinha apenas o bacharelato.»

Jornal PÚBLICO, 22 de Março de 2007


Licenciado em engenharia...


Processo de licenciatura
Há falhas no dossier de José Sócrates na Universidade Independente
Jornal PÚBLICO, 22.03.2007 - 07h09 Ricardo Dias Felner

O dossier relativo à licenciatura de José Sócrates na Universidade Independente tem várias falhas. Há alguns documentos por assinar, ou sem data, timbre ou carimbo, tal como há elementos contraditórios, nomeadamente os relativos às notas atribuídas a José Sócrates.

De acordo com os documentos a que o PÚBLICO teve acesso - 17 folhas fotocopiadas de "todo o dossier" de curso -, o primeiro-ministro terminou o bacharelato no Instituto Superior de Engenharia Civil de Coimbra em Julho de 1979, com média de 12 valores. Quinze anos mais tarde, quando já estava empenhado na campanha de António Guterres para primeiro-ministro e era deputado do PS, inscreveu-se no curso do ISEL (Instituto Superior de Engenharia de Lisboa) de Engenharia Civil, na modalidade de Transportes e Vias de Comunicação.

Uma das folhas do processo, de que foi dada cópia ao PÚBLICO e lida na presença do reitor da UnI, indica que José Sócrates fez dez cadeiras semestrais no ISEL, no ano lectivo de 1994/95. E deixou 12 por fazer, antes de entrar para a Independente. Aqui, Sócrates concluiu cinco disciplinas.

Foi essa folha que terá servido para atestar a frequência das disciplinas no ISEL no processo de equivalência e matrícula da UnI, a 14 de Setembro de 1995. Só que a sua data é posterior: nas costas da fotocópia vê-se um carimbo, assinado pelo chefe de secção da secretaria do ISEL, "conforme o original arquivado", com data de 8 de Julho de 1996. Já o Boletim de Matrícula na UnI revela que, nessa ocasião, o único documento junto ao processo foi uma fotocópia do BI.

Se estes dois documentos são assinados e têm data, o mesmo não sucede com outras fotocópias. É o caso, por exemplo, do Plano de Equivalências de José Sócrates, sem qualquer timbre nem carimbo e onde se concretiza que cadeiras mereceram equivalência por parte da UnI. Ou do Pedido de Equivalência, uma folha não numerada (como todas as outras), onde apenas surge o nome José Sócrates Sousa, manuscrito pelo próprio, e o mapa de equivalências por ele proposto. Acresce que o número de cadeiras a que é requerida a equivalência, 25, tem menos uma cadeira do que o total das disciplinas a que José Sócrates viria de facto a obter equivalência no processo de transferência: 26. Por outro lado, o espaço onde o responsável do conselho pedagógico pelo processo deveria colocar a sua assinatura está em branco.

Documentos sem numeração

Não se sabendo a data em que foi entregue, consta também dos documentos consultados o requerimento em que José Sócrates pede o plano de curso da UnI e afirma enviar a relação das cadeiras que fez no ISEL. Sócrates ressalva, contudo, que o certificado do ISEL só o poderá entregar em Setembro, "pelo facto de algumas notas não estarem ainda lançadas". Calcula-se que o primeiro-ministro se estivesse a referir a Setembro de 1995, mas com essa data, ou outra aproximada, não se encontra qualquer certificado do ISEL. O primeiro-ministro despede-se apresentando os melhores cumprimentos, com "do seu José Sócrates" escrito à mão. O reitor disse não conhecer o primeiro-ministro antes de este ter frequentado a UnI.

Na resposta ao requerimento de José Sócrates, esta com data de 12 de Setembro de 1995, assinada pelo reitor, é atestada a recepção do requerimento e Luís Arouca indica já que a comissão científica da Faculdade de Ciências da Engenharia e Tecnologias deliberou "propor-lhe a frequência e conclusão das seguintes disciplinas do Plano de Estudos de Engenharia Civil: Análise de Estruturas, Betão Armado e Pré-Esforçado, Estruturas Especiais e Projecto e Dissertação". De fora ficou, "por falha", segundo Luís Arouca, a cadeira de Inglês Técnico.

Por fim, existem duas folhas avulsas, aparentemente folhas de rosto, que não se percebe a que se referem. Uma, com cabeçalho do gabinete do secretário de Estado Adjunto do Ambiente, é um fax dirigido a Luís Arouca e aparenta ser uma folha de rosto. Na zona do texto, José Sócrates escreveu: "Caro Professor, aqui lhe mando os dois decretos (o de 1995 fundamentalmente) responsáveis pelo meu actual desconsolo."

Luís Arouca afirmou ao PÚBLICO não se lembrar a que se referia o primeiro-ministro. O reitor insistiu, ainda, que não existem mais documentos sobre José Sócrates naquela instituição. "As fichas de cada aluno já ninguém sabe delas. Nos primeiros anos, a nota final é acompanhada com fundamento, depois é deitada fora", concretizou. Sobre o registo do pagamento de propinas, a resposta foi semelhante. "Ao fim de cinco anos, vai tudo para o maneta." Por fim, confrontado com o facto de as folhas do processo não estarem numeradas, o reitor afirmou: "A numeração importa. Mas nem sempre se numera."

O certificado de habilitações, assinado pela chefe dos serviços administrativos, Mafalda Arouca, e pelo reitor, Luís Arouca, indica ainda que o curso foi concluído a 8 de Setembro de 1996, com média final de 14 valores.



Por que decidimos fazer esta investigação - Nota da Direcção Editorial

Há cerca de um mês que se avolumaram, na blogosfera, referências múltiplas, algumas delas entretanto reproduzidas em jornais ou citadas nas rádios, à forma como José Sócrates obtivera a sua licenciatura em Engenharia Civil.

Para o PÚBLICO, o currículo académico de um político ou qualquer outra figura pública não é critério para o avaliar nem como pessoa, nem para saber se é ou não competente para exercer o cargo que ocupa. Grandes figuras políticas europeias - como Jacques Delors - não possuíam qualquer licenciatura. Na banca portuguesa, o presidente de um dos principais bancos privados e o vice-presidente doutro grande banco também não completaram a sua licenciatura.

E, entre os seis membros da direcção do PÚBLICO, só um completou a licenciatura, e não é o director. Em contrapartida, para o PÚBLICO, é importante verificar se referências susceptíveis de colocar em dúvida a forma como o primeiro-ministro se licenciou merecem ser investigadas. Não para saber se merece ou não o título com que se apresenta, mas para verificar se agiu sempre de forma limpa, leal e legal. Era isso que os boatos que corriam um pouco por todo o lado punham em causa - e saber se um curso superior foi obtido ou não de forma limpa, clara e legal é fácil de provar.

O resultado dessa investigação, assim como os passos dados pelo jornalista para recolher a informação aqui reunida, permite ao leitores ajuízarem sobre o que estava certo e o que estava errado no que se dizia à boca pequena, algo que só foi possível porque o próprio primeiro-ministro deu autorização para que consultássemos o seu processo individual na Universidade Independente. Desse processo apenas reproduzimos nestas páginas imagens das peças que considerámos mais relevantes, o que resultou da opção de não divulgar outros elementos do currículo escolar que não eram relevantes para esta investigação. Fizemo-lo por considerar que isso podia configurar uma intromissão na esfera privada de José Sócrates que nada acrescentava ao esclarecimento do que era relevante.

Esta investigação permitiu já ao gabinete do primeiro-ministro corrigir um elemento do seu currículo que era disponibilizado no site oficial do Governo, o que em si mesmo é positivo.

O PÚBLICO não dá à estampa boatos, mas não deve ignorar que eles existem e que a melhor forma de acabar com eles é confirmá-los ou infirmá-los. Foi isso que procurámos fazer, até ao limite do possível, com esta investigação.

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Tributo a Zeca Afonso, pelo Quinteto de Jazz de Lisboa

AUDITÓRIO MUNICIPAL DAS LAJES DO PICO
| 24 DE FEVEREIRO - 21.H30

«O espectáculo Tributo a Zeca Afonso, pelo Quinteto de Jazz de Lisboa, homenageia aquele que foi sem dúvida o Mestre da música popular portuguesa do século XX, José Afonso, quando passam 20 anos sobre a sua morte. O Município das Lajes do Pico sente-se honrado por se associar a esta mais que justa homenagem ao criador de Vampiros e Grândola, Vila Morena.»
«Quinteto Jazz de Lisboa - Fundado em 1988, o Quinteto de Jazz de Lisboa é desde a sua origem o grupo de jazz português com mais discos vendidos nesta área musical, tendo editado o seu primeiro trabalho discográfico Viragens em 1999. De realçar que o grupo foi criado para levar este género musical a percorrer todo o país com o intuito de romper as barreiras existentes entre o jazz e o grande público, descentralizando a cultura, na medida em que o repertório do grupo vai da fusão da música de raiz popular portuguesa, fado e o jazz, num espectáculo com grande qualidade musical.
Com dois discos editados o Quinteto de Jazz de Lisboa conta, no seu currículo, com digressões por vários festivais de jazz em países como Holanda, França, Espanha, Alemanha e Brasil.
O elenco é constituído por José Carvalho (voz), João Courinha (saxofone), Paleka (bateria), Emílio Robalo (piano e teclados) e Paulo Neves (baixo).»

in http://www.municipio-lajes-do-pico.pt

sexta-feira, dezembro 29, 2006

Aeroporto do Pico


A FALHA
Aeroporto do Pico ainda não tem voos nocturnos

«O novo sistema de iluminação da pista do aeroporto do Pico, instalado no Verão, continua sem estar certificado pelo Instituto Nacional de Aviação Civil, o que impede voos comerciais para a ilha durante a noite. Fonte da transportadora Sata Air Açores, que gere o aeroporto, adiantou que os técnicos da empresa responsável pela instalação do sistema "detectaram falhas numa das cabeceiras da pista", situação que ainda não está resolvida. Só depois de reparadas as falhas é que uma equipa de inspectores daquele organismo se deslocará ao Pico e realizará um voo de teste para certificar a nova iluminação. Durante a época de Natal, alguns voos provenientes de São Miguel e da Terceira com destino ao Pico foram cancelados, inicialmente devido às más condições climatéricas e, mais tarde, por falta de iluminação da pista. Por inaugurar está também a nova aerogare do Pico, operacional desde Maio de 2006, mas ainda a funcionar de forma provisória, devido à ausência de alguns equipamentos, como balcões de check-in, passadeiras para bagagem e raios-x. Alguns destes equipamentos já chegaram à ilha, mas só deverão ser montados em Janeiro e começar a ser utilizados em Fevereiro. A nova aerogare custou aos cofres da região cerca de 5,5 milhões de euros, mas, apesar de já estar a funcionar há sete meses, ainda não foi inaugurada, por não estar totalmente operacional.»
jornal Público, sexta-feira, 29 de dezembro de 2006

Cantata de Natal













O
Grupo Coral das Lajes do Pico apresenta dia 30,
pelas 20,30 horas, na igreja Matriz das Lajes,
mais uma tradicional
Cantata de Natal. A não perder.

domingo, dezembro 24, 2006

Boa Festas


DESEJAMOS A TODOS UM FELIZ NATAL E UM EXCELENTE 2007!

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Partem os melhores de nós

Faleceu ontem de manhã a fotógrafa Lúcia Vasconcelos. Uma artista sensível, obstinada no rigor, de uma humanidade tocante.

Incansavelmente fotografou a nossa terra, em especial as Festas do Divino Espírito Santo e a Semana dos Baleeiros. Por isso, os lajenses estão de luto.


Em Maio deste ano, a Câmara das Lajes promoveu a sua última exposição, na Galeria Municipal. Lembramos aqui os textos do Catálogo:

Há cerca de seis anos aceitei um convite para fotografar as festividades do Espírito Santo nas Lajes do Pico.

Já em 1998 tinha tentado iniciar um projecto idêntico no continente; desisti, porém, ao fim de algum tempo, pois apenas encontrei vestígios da sua grandiosidade no passado.

Não tinha eu buscado sem encontrar? Não tinha eu desistido?

E agora, não me procuravam para provar que o culto ao Divino Espírito Santo existia, estava bem vivo, pertencia ao presente e, desta ilha pequena, continuava a perpetuar-se em terras longínquas?

Qualquer coisa de sobrenatural aconteceu, qualquer coisa que me envolveu profundamente com esta montanha mágica, com o culto ao Divino Espírito Santo. Nunca, mas nunca, vou acreditar que tudo tivesse sido um puro acaso…

Lucia Vasconcelos

A programação de 2006 da Galeria Municipal das Lajes do Pico não poderia abrir de melhor maneira. No tempo, porque a exposição abrange ainda as Festividades do Espírito Santo. Com arte, porque é disso que se trata no trabalho rigoroso e sensível de Lucia Vasconcelos, a ultrapassar o mero registo e a ambicionar ser uma arte que procura ir mais além... E, em particular, pela amizade que une uma pessoa a uma terra e às suas devoções – uma terra ganha felicidade com as pessoas que a amam.

Por tudo isto, é com muito prazer e orgulho que recebemos Em Nome do Espírito Santo de Lucia Vasconcelos na nossa Galeria.

Presidência da Câmara Municipal das Lajes do Pico | Maio de 2006


Ainda este ano, a Câmara editou uma colecção de postais com fotografias suas (estão na loja do Forte de santa Catarina).

terça-feira, novembro 28, 2006

Palavras de poetas (#07)

poema

Tu estás em mim como eu estive no berço

como a árvore sob a sua crosta

como o navio no fundo do mar

MÁRIO CESARINY, Pena Capital, Assírio & Alvim, 1982

Morreu o poeta, viva o poeta!


O adeus ao poeta surreal
Alexandre Costa

Partiu este fim-de-semana um dos expoentes máximos do surrealismo português. Aos 83 anos, o poeta e pintor, Mário Cesariny, faleceu na madrugada de domingo, em sua casa, devido a um cancro na próstata. O seu corpo está em câmara ardente no Palácio Galveias, no Campo Pequeno, de onde partirá às 14h para o Cemitério dos Prazeres.

Várias figuras de Estado e da Cultura portuguesa têm marcado presença nas cerimónias fúnebres. O poeta e deputado socialista, Manuel Alegre, qualificou Cesariny como “um homem livre”, “um dos maiores portugueses de sempre” com “uma voz única que ficará para sempre na História”. Na sua mensagem de condolências à família, o Presidente da República, Cavaco Silva, disse que Cesariny foi “um dos nomes cimeiros da cultura portuguesa no século XX”. A Câmara de Lisboa anunciou que irá dar o seu nome a um equipamento cultural relevante.

Mário Cesariny de Vasconcelos, nascido em Lisboa a 9 de Agosto de 1923, de pai beirão e mãe castelhana, foi sobretudo conhecido pela sua obra poética, mas foi também romancista, ensaísta e pintor.

Da sua extensa obra literária destaca-se o trabalho de antologista, compilador e historiador (polémico) das actividades surrealistas em Portugal, sendo também a sua obra poética considerada um dos mais ricos e complexos contributos para a história da poesia portuguesa contemporânea.

Entre as suas inúmeras obras, destacam-se títulos como "Corpo Visível" (1950), "Manual de Prestidigitação" (1956), "Pena Capital", "Nobilíssima Visão" (1959), "Antologia Surrealista do Cadáver Esquisito" (1961), "A Cidade Queimada" (com arranjo gráfico e ilustrações de Cruzeiro Seixas, 1965), "Burlescas, Teóricas e Sentimentais " (1972), "Primavera Autónoma das Estradas" (1980), "O Virgem Negra. Fernando Pessoa Explicado às Criancinhas Nacionais Estrangeiras por M.C.V." (1989) e "Titânia" (1994).

Em 2005 foi distinguido com o Grande Prémio Vida Literária APE/CGD e a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade.

REACÇÕES

“O último representante da plêiade de grandes poetas portugueses que marcaram o século XX”.
Fernando Cabral Martins, escritor e professor de Literatura

“Extremamente subversivo”, escrevia “com uma grande clareza e delicadeza, que não ocultava por vezes uma grande violência”.
Baptistas Bastos, jornalista e escritor

“Um príncipe” com uma “absoluta nobreza de carácter”.
Bernardo Pinto de Almeida, poeta, professor e critico de arte

“Um homem que não receava enfrentar os códigos. Um espírito livre, que sofreu mesquinhez que abunda na sociedade portuguesa, com a intolerância política e a rigidez moral”.
Arnaldo Saraiva, professor de Literatura

"Um surrealista vital", com uma vida feita de "insubmissão, desassombro e risco".
José Manuel dos Santos, amigo de Cesariny

“Viveu a vida como uma oportunidade única, ao mesmo tempo com riso e desdém”.
Manuel António Pina, poeta e cronista

"Lisboa perdeu um dos seus grandes cultores", marcado pela "inquietude criativa".
Carmona Rodrigues, presidente da Câmara de Lisboa

Jornal Expresso, 27 de Novembro de 2006

segunda-feira, novembro 27, 2006

Mozart nas Lajes do Pico


Na Igreja Matriz, dia 1 de Dezembro, pelas 15 horas: Requiem de Mozart, com interpretação do Coral de São José. O Coral é acompanhado pela Orquestra Açores Camerata, com 4 solistas internacionais e Direcção do Maestro Walter Kobera (Director da Ópera Nova de Viena). Esta iniciativa integra-se nas Comemorações dos 250 anos do nascimento de Mozart.

sábado, novembro 25, 2006

Intelectuais contra TLEBS

Vasco Graça Moura, José Saramago e Eduardo Prado Coelho, entre outros intelectuais e professores, entregaram um abaixo-assinado à ministra da Educação. O documento pede a suspensão “imediata” da Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário (TLEBS). Consideram-na “incorrecta e abstrusa” e a sua aplicação “terá gravíssimas consequências para o país”.
(jornal Expresso, 25 de Novembro de 2006)

quinta-feira, novembro 23, 2006

Palavras de poetas ( # 02 - rectificado)

Viola d'África
amigo a tua viola é o que resta
das papoilas e das rosas dum país
enches as noites africanas com acordes
de cravos e de cardos e lentamente uma serpente

de saudade
vai-te cercando o corpo
lentamente.

percorres a tua escala de ausência
na melodia em tom menor
com que se escrevem temas de exílio
solidão cansaço.

e o teu canto é um uivo agourento
e branco
atirado à lua
sob este céu que não foi nunca de Janeiro.

Urbano Bettencourt, in Marinheiro com residência fixa

Caros conterrâneos-em-blogue,
Surpreendido e agradecido com a publicação do meu texto em Outubro (e que só agora descobri, ao mesmo tempo que o vosso blogue, que tenho andado a consultar).
Gostaria, porém, de chamar a atenção e pedir que, se possível, corrigissem um lapso na segunda estrofe: onde está "Vai-se cercando" deveria estar "Vai-te cercando", que é a construção que faz sentido ali. O lapso vem, creio eu, desde a Antologia organizada por Ruy Galvão de Carvalho e tem-se multiplicado, biblicamente; mas se formos quebrando a cadeia (o Luís Bettencourt já o fez na Praia da Vitória), pode ser que um dia se consiga encontrar só a versão correcta.
Cumprimentos e votos de continuação
Urbano Bettencourt

terça-feira, novembro 14, 2006

Palavras de poetas (#06)

Soneto de identidade

"Chamo-me Pedro, sou Silveira e sou
também Mendonça: um tanto duro, como
Pedro é pedra; picante agudo assomo
de silva dos silvedos — não me dou

Raiz flamenga, já se sabe; e um gomo,
no fruto, castelhano. E assim bem pou-
co, pois, que doce me passara à ou-
tra pátria (língua?) que me coube e tomo.

Ainda Henriques (alemão? polaco?)
e outros cognomes mais: espelho opaco
de errâncias várias, que mal sei (desfaço,

talvez por isso, no que faço.) Ilhéu
da casca até ao cerne — e lá vou eu,
sem ambição maior que o livre espaço".

Pedro da Silveira, em Poemas ausentes, O Mirante, 1999: 14

(os nossos vizinhos do lado publicam post sobre este grande poeta florentino; o Boletim Municipal das Lajes do Pico dedicou-lhe em 2004 [nº 11] uma recensão, «O último porto da memória», por Inês Dias, republicado na revista Magma [nº 1], na Separata com textos daquela autora: «À Flor do Mar», Lajes do Pico, Dezembro de 2005)